» Homens na dança Oriental –  Verdades  e Mentiras

Homens na dança Oriental – Verdades e Mentiras

Homens na dança Oriental –  Verdades  e Mentiras

Bibliografia  – Morrocco

You asked Aunt Rocky – Answers and advices about Raqs Shari e Raqs Shaabi – By Morocco

Antropologia -

Por muitos séculos os cafés e casas de chá no Oriente Médio eram um lugar de proeminência masculina e não feminina

Os principais artistas eram homens e não mulheres. Se eles pertencessem a uma família de artistas, onde músicos, cantores e até mesmo bailarinos coexistiam, as dançarinas que não eram tempo integral profissionais da área ficavam restritas aos Moulids – festivais religiosos, casamentos, festas de circuncisão, celebrações familiares ou encontros exclusivamente femininos.

Com a chegada dos Europeus ao Oriente e aconsequente contratação maior das mulheres do que dos homens, eles pouco a pouco foram deixando o meio, pois não queriam ser ridicularizados pelos estrangeiros.A dança nestes locais passou a ser predominantemente feminina. Ainda hoje podemos ver , alguns Ghazi – invasores ou guerreiros na tradução literal , que se apresentam mas são em número muito pequeno.

Podem-se encontrar fotos de homens vestidos de mulher, dançando numa grande feira de exposições que aconteceu em Chicago no ano que 1893.

Encontramos também artigos descrevendo homens que dançavam vestidos de homens com suas roupas típicas , tendo como escritores, pessoas respeitadas como pesquisadores científicos como por exemplo Edward Lane.

Fustanellas, Gallabias , Kaftans and kochek, eram roupas típicas masculinas que para um expectador ocidental poderiam parecer femininas, apenas por serem absolutamente distintas das roupas que os homens ocidentais utilizavam.

Imagens desta época podem ser vistas nos registros de imagens da Feira de Filadélfia em 1876 e na feira de Chicago em 1893.

Morroco diz que desde sua primeira visita ao Egito em meados dos anos 60 até os anos 80 era possível encontrar homens dançando com suas galabias e até mesmo com sagats, sem que estes se considerassem femininos, propriamente. Simplesmente se apresentavam com uma dança que era típica de sua região. Utilizavam em torno do quadril um lenço ou xale, marcando esta área do corpo.

Durante todos os anos em que os países do Oriente Médio , como o Egito, receberam a colonização ou grande interferência europeia em suas terras, uma nova forma de lidar com as coisas também surgiu. Esses cidadãos burocratas, buscando sua ascenção e crescimento social, tentavam se igualar aqueles que os colonizavam buscando por seus gostos e até mesmo assumindo seus preconceitos.

Nasceram locais de diversão ou nightclubs que buscavam entreter mas com um toque ocidental, e nestes locais não queriam homens dançando mas sim mulheres. Ainda que fossem representantes femininas, não contratavam se a mulher tinha a pele muito escura, ou os cabelos muito crespos, nem muito gorda. Tudo o que era apresentado nestes locais era especialmente preparado para o gosto europeu. Foi assim no local criado por Badia Massabni .

Com esta troca de gostos e direcionamento do mercado , os homens foram postos totalmente de lado, e não tinham mais espaço para se apresentar ,onde agora era o ponto de partida dos shows. Esse mal entendido que dura muito tempo, levou a idéia pre concebida de que a dança oriental é exclusivamente feminina, o que vem de encontro segundo Morroco com o desejo das mulheres ocidentais, de terem algo que possam dizer, que pertence exclusivamente a elas como o fazem com esta dança.

Temos o direito de dizer que a dança Oriental é exclusivamente feminina? Fica a pergunta para o grupo.

No Oriente Médio , Raks Sharki / Dança Oriental faz parte da vida social de qualquer pessoa, praticada por pessoas reais, em suas vidas pessoais, em casa ou em qualquer festa ou celebração familiar. O fato de homens poderem e de fato dançarem nestes lugares, não é uma questão de opinião, é uma realidade.

Os movimentos ao dançar não são diferentes entre homens e mulheres, tudo é exatamente igual, com  a diferença de que as mulheres ao chacoalharem os ombros, tem algo mais que se move em seu tronco superior – os seios.

A delicadeza dos braços, a movimentação dos quadris, tudo acontece da mesma maneira. Os movimentos não são diferenciados de acordo com o gênero de quem os executa. Fazem parte de um repertório cultural, e pertencem a esta sociedade de forma igualitária.

Algumas considerações sobre o que os europeus levaram de volta para casa pós cruzadas:

  • Cavalheirismo com as mulheres
  • A forma de cumprimento tocando o coração os lábios e a cabeça – Salam
  • Braços e mãos em delicadas movimentações
  • Alaúde

De alguma maneira esses movimentos delicados de braços e mãos no Ocidente passaram a ser considerados femininos, e portanto não pertencentes aos homens

Assim como a dança Oriental, a divisão estava feita

Outros preconceitos ocidentais se uniram a isso, por exemplo a crença dos homens ocidentais de que um homem normal nunca dançaria isso, mas somente se fosse alguém que se vestisse de mulher ou fosse homossexual. Por esses preconceitos e para não serem tachados desta maneira, muitos homens simplesmente decidiram não se profissionalizar, pois enfrentaram preconceitos em seus próprios países.

Por isso não vemos no Egito homens que dançam profissionalmente em hotéis 4 e 5 estrelas. Tito Seif por exemplo apenas saiu para os palcos de forma mais aberta, a partir de 2001 e assim mesmo sua trajetória começou em Sharm el Sheikh.

Visitando um país árabe qualquer uma de nós pode ver estes homens dançando baladi numa discoteca, em night clubs em festas, apenas não estão no palco sendo as figuras principais e nem usando os trajes que estamos acostumadas. Mas a dança está lá ou não está?

Pode-se diferenciar de fato o que pertence as mulheres e o que pertence aos homens?

Um homem vestido de mulher, não está se apresentando como homem mas como uma mulher., então não podemos esperar que ele se movimente como um homem.Esta é uma categoria de performance totalmente separada que também existiu e ainda existe em muitos países do mundo. 

Kocheks

Uma categoria especial de dançarinos na Turquia. Tratados como DIVOS, adorados em sua aparência e por seus talentos e altamente recomendados para performances e como animadores, das mais variadas celebrações

Os dançarinos masculinos sempre foram muito populares, tanto na Turquia como na Persia.

Estes dançarinos eram tão populares que tinham torcidas organizadas para eles, como imensos fã clubes. Até mesmo no exercito existiam organizações para discutir quem era a maior estrela, como se eles fossem jogadores de futebol da atualidade. Eles perderam tudo quando foram expulsos de Istambul em 1837 e depois quando foram totalmente banidos da Turquia em 1856.

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Uma das possibilidades para entender o porque da má interpretação da dança executada pelos homens pode ser em função do traje que usavam.

Era um refinado roupão que para os ocidentais parecia com um vestido feminino. Pode se encontrar miniaturas do sec treze e quinze que mostram estes dançarinos com seus trajes típicos.

Outra abordagem sobre o porque da  má interpretação pode ser compreendido, com a falta de flexibilidade do Ocidente em respeitar formas de expressão e convívio social diferentes das suas. Ridicularizando ou fazendo piadas sobre o outro, demonstro mais uma maneira de pisar sobre a cultura alheia, ou oferecer a minha forma de civilização a uma outra estrutura social, que difere totalmente daquela a qual fui submetido desde criança.

No passado

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Homens na dança antes do colonialismo

Pode- se encontrar litografias que mostram os homens dançando. Há uma em especial do sec 17 que mostra um dançarino profissional sírio como um bailarino Oriental, usando sagat nos dedos.

Homens dançarinos também eram numerosos no Egito antes que um califa no Cairo, os proclamasse fora da lei durante a invasão de Napoleão ( o mesmo califa teve lmais de 300 dançarinas mulheres costuradas em sacos e jogadas no Nilo, porque um general francês disse que eras eram ofensivas)

Mais tarde o Pasha Muhammad Ali as exilou para Esa, Edfu e Sumbat, junto com todas as Ghawazi e outras dançarinas mulheres para limpar o Cairo antes da chegada dos Ingleses. Em 1834 todas as dançarinas públicas do Cairo foram banidas.

Dançarinos homens são reportados por diversos escritores como Flaubert por exemplo ou Curtis, que os viram em suas viagens, especialmente os famosos meninos dançarinos das chaikhanas (casas de chá turcas ) Assim como estes escritores, outros menos sensacionalistas e viajantes comuns também presenciaram a realidade dos homens que dançavam nesta época.

Efeitos do Colonialismo

 

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Aqueles que eram bailarinos profissionais perderam sua posição. Não me refiro somente aos Kowals e Ginks – homossexuais e drags. Mas sim aos homens que eram simplesmente performers e usavam roupas masculinas, ainda que executassem o que chamamos de Raks Sharki.

Bailarinos profissionais homens não eram um ponto comum nas cafeterias do Cairo e nos nightclubs, desde 1920 porque estes clubes agora faziam de tudo para agradar os burocratas dos governos colonialistas, e até mesmo os burocratas otomanos, que queriam ver um dançarinas femininas exclusivas ou “ luxuosas”

Se eles quisessem dançarinos, sabiam onde deveriam ir – haviam locais menores e menos conhecidos, que ainda os tinham.

Quando os primeiros europeus viram os movimentos das Ghawazi , eles acharam tudo muito forte , com excesso de energia , pesado e não feminino. Um vocabulário de movimentos é um simplesmente um repertório de movimentos, e nada mais.

Para nomear algo feminino ou masculino, na verdade utilizamos parâmetros pessoais no lugar de assimilar e respeitar as diferenças presentes em outras culturas, sem necessariamente diminui-las por serem diferentes das nossas.

As expectativas, crenças e sistemas de educação dos Ocidentais, determinaram o que para nós é aceitável ou não em termos sociais. De certa maneira vivemos muitas gerações depois, o que foi estabelecido há muito tempo atrás, por quem nos colonizou.

Exemplo: No Brasil o que sabemos sobre as tradições indígenas?

O que sobrou desta civilização que de fato era a dona desta terra?

Como foram tratados em nosso próprio país?

Agora podemos transferir isso para o Oriente Médio.

É doloroso assumir o quanto o Oriente Médio absorveu, acreditou e manteve viva a chama do esnobismo e racismo ocidentais, nos tempos atuais, mesmo quando já não são colônias destes países e culturas distintas das suas.

Uma comparação entre colonizadores – FRANÇA e INGLATERRA

Onde os franceses tiveram um grande poderio e assumiram a colonização mantendo sua presença em larga escala, como por exemplo , Marrocos , Tunisia e Algeria ( antes da revolução na Algéria em 1960) eles mantiveram uma certa distancia dos locais, portanto as roupas, musica e dança destes lugares, permaneceu intocada e inalterada , a não ser entre os cosmopolitas nas cidades que desejaram se misturar com seus chefões imitando-os.

O Egito estava sob a dominação Inglesa e onde os ingleses estavam eles queriam” elevar” os locais, impondo seus gostos, preconceitos e idéias culturais.

Especialmente na India, eles corromperam a mais antiga forma de dança deste local , Nautch, nome original desta dança, que mais tarde foi renomeada como Barata Natyam, e tratada como se fosse uma forma totalmente diferente de dança, para posteriormente ser elevada ao atual e merecido nível de apreciação em seu próprio país e pelo mundo todo.

Para pensar

Numa cultura onde ambos homens e mulheres dançam, onde uma percentagem significante da população tem características que mostram claramente sua ancestralidade africana, os homens que dançam podem fazer jazz e passos folclóricos russos, mas não os movimentos de sua própria cultura( que eles de fato executam quando estão uns com os outros e fora do palco) nos shows em night clubs, onde apenas mulheres com a pele mais clara e cabelos lisos são contratadas para dançar, usando trajes que a maioria das mulheres de lá nunca ousariam usar em público!

Exemplos de dança Masculina ainda remanescentes

Shickhatt – D`Jemaa el F´na no Morrocos. Shickhatt é uma dança feminina

Há mais dançarinos homens de Raks el Seniah do que mulheres

Há mais dançarinos – Sharbaaya do que dançarinas – dança típica tunisiana, com jarros de duas alças.

O material deste texto pertence a autoria de Morrocco

O texto foi traduzido em 2012 por Lulu para um convite do maravilhoso programa de Hob Salam – Sala de dança  Podcast!

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