» Num tempo de quietude forçada!!

Num tempo de quietude forçada!!

Num tempo de quietude forçada!!
Faz tempo que não escrevo e faltando apenas dois dias pra o final deste tremendo 2012 para não dizer outras coisas mais, decidi parar um pouco.

Hoje o marido foi com a filhinha ver amigas que preferem que eu não esteja por perto mesmo, na verdade, tadinhas, eu levei esse homem precioso embora e nunca mais devolvo, nem fico brava, elas podem aproveitar um pouquinho.

O fato é que estou sózinha e tranquila e posso escrever sem Eva pulando no meu joelho operado…
Pois é para quem não sabe, esfacelei suavemente meu menisco numa viagem de trabalho, parece até piada, depois de 29 anos dançando fui assistir a uma aula porcaria, num chão pior ainda e o que ganhei foi uma cirurgia no meu joelhinho virgem !!

Parafraseando uma amiga que incansavelmente me inspira ( né Cá? ) o tempo serve pra muitas coisas, inclusive para nos devolver a realidade perdida, que não é o mundo dos macacos mas parece!

Eu sabia que minha viagem para Alemanha seria um tempo difícil e de realinhamento mas não estava preparada para o que significa não ter estabilidade… nos joelhos!
Para alguém que dança, não poder andar, parece uma coisa do outro mundo, e para os mexeriqueiros de plantão, mando recado, o joelho está bem muito obrigada, e pragas não pegam
Tinha gente dizendo que ia emancipar minha cirurgia, me dando umas lambadas antes da hora, e me pergunto, o mundo tá mais cheio de maluco que os manicômios…inventaram tanto nome novo de doença mental, que hoje em dia, fica dificil falar quem é são…tá todo mundo louco!!!

Para as bailarinas que eu conheço, digo o que já dizia antes em aula, cuidem muito bem dos joelhos, eles são seus amortecedores naturais, e também agora descobri na marra, os grandes estabilizadores de nosso corpo.
Tente ficar em pé de joelho mole…tenta aí!! Não vai conseguir, isso se conseguir amolecer os joelhos falsamente o que também é difícil demais, só vivendo mesmo…”já dizia minha mãe, quem não ventura num vévi’

E assim foi para mim, um dia antes do show da escola deste ano – Mitológia Feminina- operei meu joelho esquerdo.
Dia seguinte, das oito da manhã até as onze da noite, teatro, comandando o show e lendo pequenos textos sobre as Deusas.

Drenagem na perna operada – o que é isso? Não da tempo e ninguém me disse que precisava, e eu que cuido de tantas coisas , não cuidei de mim mesma, e trabalhei como se fosse um dia qualquer.
A perna ficou de um tamanho esquisito, parecia que de um lado eu era Dumbo e do outro a mesma de sempre.

4 dias depois a viagem de avião e as agruras de usar uma cadeira de rodas. Depois coloco fotos aqui, claro que o Michael não ia perder a chance de tirar uma foto reportagem deste feito espetacular, me manter parada sem ir a lugar nenhum, dependendo inteiramente de onde ELE iria me levar!

Privada dos movimentos normais que todos nós temos, é que podemos mais uma vez reavaliar a preciosidade que é ter um corpo que funcione a todo vapor, sem problemas ou limitações.

Coisas simples passam a ser as mais complicadas do mundo. Nao pode andar, não pode torcer, não pode apoiar, então o que pode?
Pode ter paciência minha filha…

E eu descobri uma vez mais que este é um talento que tenho que requisitar para a próxima encarnação.
Credo, como eu não tenho paciência!! é horrível, nem eu me aguento, quanto mais quem está por perto.

Para me distrair este marido que o Universo me deu, me encheu de arte e mais uma vez me lembrei de vc Ca, vc ia amar o que eu vi.

Fui assistir Madame Butterfly, aqui em Saarbrucken. Uma chinesa era a dona do papel principal e ela simplesmente carregou a ópera sózinha o tempo todo. Duas horas e pouco de mergulho no sofrimento desta gueixa apaixonada por um tenente americano.

Que voz era aquela, vindo de uma mulher tão pequena, que carregou o teatro todo como se ela pudesse com um pequeno gesto mover os corações deste público que é tão mais formal, do que nós brasileiros, quando nos sentimos tocados na alma.
No final, eu levantei, esqueci as muletas, quase caí e ainda passei vergonha, pois aqui, quando eles gostam muito batem com os pés no chão e nada mais, e só dava eu, cambaleante, com o olho embaçado de tão molhado e doida, em pé, sem bater o pé, em respeito ao que tinha acabado de ver…

No dia seguinte, ainda ávida, de mais ele me levou para ver ” A casa Azul ” uma obra de uma cia inglesa de dança inspirada na história de vida de Frida Kahlo.
Uma mulher a frente de seu tempo, uma artista apaixonada, dona de uma intrepidez maluca e um desejo de amar profundo.
Uma lutadora , uma guerreira e porque não dizer vencedora, pois ela quebrou muitas de suas próprias barreiras e continuou tentando.

Com tanta ajuda era impossível não passar por aqueles primeiros dias, e assim foi.
Hoje estou no 13º dia pós cirurgia e já ando ainda com ajuda, sentindo menos dor, sei que é passageiro mas também sei que existem coisas a serem aprendidas profundamente neste período.

Que eu possa mesmo usar o poema de Drumond para viver este pouquinho que falta de 2011 e poder começar um caderno novo em 2012.

Como diz outra amiga, escolhendo melhor para quem eu dou o meu melhor, pois estes que estão por perto e são reais já viram meu pior e só eles e ninguém mais merecem o melhor!

Que venha o novo ano, e com ele muita energia e paciência para as novas lições!

Que pode uma criatura senão,
entre outras criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Eterno Carlos Drumond de Andrade

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